Musical ‘Nuvem de Lágrimas’ é um verdadeiro mergulho no universo caipira e sertanejo do interior

Nuvem de Lágrimas - Lucy Alves e Gabriel Sater

Pouco depois de o ator, diretor e produtor Luciano Andrey encomendar a Anna Toledo um musical que não fosse biográfico, mas sim baseado em músicas da dupla Chitãozinho & Xororó, a atriz, escritora, cantora e compositora se deu conta de que era na trama do filme Orgulho e Preconceito que ela ia se inspirar. A história de amor e ódio que mistura orgulho e preconceito de Elizabeth (Keira Knightley) e Darcy (Matthew Macfadyen) virou, no musical Nuvem de Lágrimas, a história de Bete e Darcy, interpretados no palco pelos atores e músicos Lucy Alves e Gabriel Sater.

Nuvem de Lágrimas 2“Eu amo esse filme e achei que ia casar direitinho com uma história que se passa em uma cidade do interior”, contou Anna Toledo logo após a sessão para convidados realizada na última segunda-feira (16/05) no Teatro Oi Casagrande, no Rio de Janeiro, no qual o musical fica em cartaz até o fim de maio.

Musical Nuvem de LágrimasEntremeada por sucessos sertanejos e caipiras já gravados por Chitãozinho & Xororó, a peça conta a história de uma família humilde formada por uma mãe fazedora de geleias, um pai caminhoneiro que vive na estrada e cheio de dívidas e três irmãs. Duas delas formam uma dupla musical chamada Irmãs Borba, que costuma tocar nas festas das fazendas vizinhas, e também trabalham na pequena e amadora cooperativa da cidade. Uma delas se encanta e encanta Carlinhos, filho de um fazendeiro rico da cidade, o Doutor Jardim, cujo braço direito é o afilhado, o advogado Darcy, um rapaz soberbo que vive escondendo o seu maior prazer: tocar violão. Darcy e Bete, a irmã mais arredia, encontram-se e se desencontram o tempo todo, mas acabam, de certa forma, unidos pela música.

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Morre Cauby Peixoto, homem de grande voz e deliciosos beijos

Eu e Cauby Peixoto

Eu devia ter 20 anos quando fui a meu primeiro show de Cauby Peixoto. Era fã desde que nasci, afinal, minha avó paterna – que se prepara para completar 101 anos daqui a dois meses – vivia reproduzindo o maior sucesso de um de seus ídolos, Conceição, ao piano. Convidada pelas senhorinhas da família do meu namorado de então a acompanhá-las no espetáculo que o cantor niteroiense (meu conterrâneo) apresentaria no Bingo de Niterói – lugar, naquela época, ainda permitido -, empolguei-me com a possibilidade de ver de perto o dono daquele vozeirão que ouvia nos LPs de Orita.

Chegando lá, percebi que eu era uma das poucas pessoas com menos de 60 anos no local. Recebi alguns olhares desconfiados e outros afetuosos no caminho até meu assento. Já na mesa, aquela grande bola de grade iniciou a rodar, colocando as bolinhas numeradas para fora, aguçando minha ansiedade: entendi logo que levar um artista daquele porte àquela casa era uma espécie de estratégia, um chamariz para a jogatina. Mas eu não estava ali para jogar! O que eu queria mesmo era…

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Roberto Carlos deve finalmente tocar em Cuba, mas e Alexandre Pires?

Roberto Carlos e o calhambeque azul / Foto: Divulgação TV Globo

Vai parecer que é mentira minha, mas eu juro que estava para escrever sobre a equação Roberto Carlos + Cuba. Saber agora (hoje mesmo) que ele está planejando fazer um show gratuito na ilha, como o feito pelos Rolling Stones, mudou completamente o rumo da prosa. A ideia era antes fazer uma pequena crítica, questionar o por quê de o Rei nunca ter pensado em se apresentar em um dos países que mais consomem sua música. Não falo de vendas de discos, afinal, a maior parte do povo cubano não tem condição de comprar álbuns… Será por isso? Bom, e eu nem sei se os importados chegam lá (faltou apurar isso na minha última passagem pelo país). Falo de memória, de amor pela canção de um artista mesmo. Em Havana, ouvi pelo menos três músicos reproduzindo as versões em espanhol dos sucessos de Roberto: primeiro, em um restaurante com música ambiente ao piano; depois, dentro da minha própria casa, ou melhor, da casa onde me hospedei, cuja dona tinha um marido músico, integrante de uma tradicional banda de salsa local; por fim, na rua, através de um senhor que, com seu violão, sentado na escada de um prédio público, misturava bossa nova com os hits românticos do Rei enquanto eu passava.

Alexandre Pires em CubaPerguntei aos cubanos se sabiam porque Roberto Carlos nunca havia tocado lá e ninguém conseguia responder. Uma pessoa especulou que os artistas que tocam lá não recebem cachê porque o governo não consegue bancar eventos desse porte (só mesmo os de músicos cubanos) e provavelmente isso não atrairia nomes como o dele. Também me disseram (e aí não foi só ele, mas uma amiga brasileira que mora e trabalha em Cuba) que deve ser esse o caso de Alexandre Pires, artista também muito celebrado pelo povo da ilha (hoje em dia até mais que o Rei), mas que nunca se dispôs a ir até lá. Ao me deparar com a nota publicada por Lauro Jardim em seu blog, no site do jornal O Globo, fiquei pensando se a decisão de ir não foi mais da TV Globo do que do próprio Roberto, afinal, parte desse show será exibido no tradicional especial de fim de ano. Vai que a emissora está pensando em seguir os passos norte-americanos e trazer um pouco de Cuba para seus espectadores?

O que mudou na minha prosa? Simplesmente eu querer terminar o post celebrando o fato de, sendo for por dinheiro ou não, meus amigos de Cuba terão a oportunidade de realizar um sonho.

 

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A frase e a casa em Copacabana de Seu Anatório

A casa de Seu Anatório

Em tempos de confusão política, para mim está muito claro que é preciso mais fé no que a natureza criou e menos no judiciário, na religião e nos “chefes”. Estava pensando sobre isso quando esbarrei com a frase acima, pintada no portão marrom da garagem de um edifício, numa rua de Copacabana. Logo que parei para ler os outros escritos, o dono da arte apareceu. Seu Anatório me contou que mora ali e que não conseguem eliminá-lo junto a seu “barraco” porque ele tem argumentos. E tem mesmo.

Seu Anatório fala de política nacional, saúde pública, evolução da medicina e meio ambiente como poucos. Lembra de histórias de Getúlio Vargas de quando ele era menino e diz que sabe alguns rolos de José Beltrame, o secretário de Segurança do Rio de Janeiro.Parece que no prédio vizinho tem um militar que foi muito atuante nos tempos da ditadura, que o prédio pintado está fechado há 44 anos e que o Ibama tentou enquadrá-lo por ter desenhado na árvore, mas saiu com o rabo entre as pernas quando ele falou ser o responsável por salvar do os troncos da rua do cupim.

A casa de Seu AnatórioA pintura da árvores, aliás, representa a morte dos pássaros e das pessoas infectados pelo fumacê da dengue, segundo Seu Anatório. Para ele, tanto faz ter perdido um trabalho na Cedae porque não tinha comprovante de residência. E acha ótimo não repetir o erro da Princesa Isabel, que tinha mais de 20 penicos, um para cada momento de necessidade: “Eu hein?! Ela fazia isso só para dar trabalho para as negras. Eu, quando preciso, abro aquela tampa ali, ó, e tá tudo resolvido!” A tampa em questão é de um bueiro… Só não gostei de ele ter chamado de “barraco” a linda casa colorida, que ganhou até réplica de uma planta: ali dentro, tem prateleiras e até ventilador. “Tenho tudo que preciso. Não entendo essa gente que tem mais ainda que eu e fica reclamando da vida.” Ai, Seu Anatório, difícil entender, né? Enfim, um homem bom!

Hoje, a alma de Seu Anatório não é só gratidão: “Só não admito isso que estão fazendo com a Dilma. Mulher boa, a única que não tem nenhum crime nas costas durante seu governo, sendo arrancada assim da presidência! Ela é que nem esse urubu que pintei, que não tem culpa de nada, mas não pode mais voar por causa dos aviões e é chamado de predador sendo que ele só come restos. Olha aí, acabou o espaço e a conservação dele! Como vai ser a sobrevivência?” Como, Seu Anatório? Como, gente?

 

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Em Cuba, Gisele Bündchen faz foto inspirada em mim

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Aproximadamente uma semana depois de eu dar um rolé pelo Malecón acompanhada do meu “nuevo amigo” David e de posar com seu Chevrolet 1954 azul perto do Capitólio de Havana, Gisele Bündchen fez a mesma coisa em sua passagem por Cuba. Discreta com seu vestidinho vermelho, sandália rasteirinha e bolsa e boina pretas, a top brasileira mostrou que sabe esbanjar estilo, beleza e simplicidade na ilha de Fidel Castro. Exatamente como eu (hehehe). Gisele me copiou em quase tudo: na escolha das cores do vestuário e do estilo do carro e no sorriso tímido de quem não estava muito à vontade sendo fotografada na frente de um monte de gente (e não na passarela). Só faltou ela dobrar um pouquinho o joelho para ficar mais baixinha e estufar a barriguinha. De resto, acho que ela conseguiu ficar igualzinha a mim. Não acham?

Cuba 2bObs.: Gisele estava em Cuba para o desfile histórico da marca da qual é garota-propaganda, a Chanel, realizado na terça-feira (03/05), cerca de um mês após a visita do presidente Barack Obama ao país para a consolidação das pazes com os Estados Unidos. Não muito sofisticado, porém não tão simples assim, o meu figurino foi usado naquele dia para uma experiência para um projeto ainda em planejamento.

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Milton Nascimento recebe título de doutor em Berklee, nos EUA, ’em reconhecimento por suas muitas realizações e conquistas’

Milton Nascimento a caminho de Berklee

Sempre achei que a experiência pode valer mais do que os anos de estudo. O convite feito pela Berklee College of Music a Milton Nascimento, que embarcou para Boston para receber o título de doutor em música nos Estados Unidos no próximo sábado (07/05), mostra que o valor de um profissional está na história que ele constrói. Nomes como Duke Ellington, Dizzy Gillespie, Sarah Vaughan, Quincy Jones, Paco de Lucia, Herbie Hancock e Aretha Franklin já receberam homenagem igual. A Milton, o motivo da escolha de seu nome foi informado através de uma carta, enviada pelo presidente da faculdade independente: “Em reconhecimento às suas muitas realizações e conquistas na carreira. Sua música tem influenciado gerações de músicos e enriquecerá, para sempre, a música popular.” Vale lembrar que uma das maiores fãs internacionais de Bituca, Esperanza Spalding, leciona no Berklee College of Music. A cantora e contrabaixista de jazz estadunidense esteve no Brasil em 2006, apresentando o show de seu álbum que contem o clássico Ponta de Areia, composição de Milton, e fez show no Rock in Rio de 2011 com participação do brasileiro. Dá-lhe, Bituca!

Veja abaixo a carta enviada a Milton Nascimento:

Berklee College of Music
20 de maio de 2015

Milton Nascimento indo para BerkleePrezado Sr. Nascimento,

Em nome do corpo docente e alunos da Berklee College of Music, tenho o prazer de convidá-lo a participar da nossa cerimônia de formatura de 2016 e receber um doutorado de Honoris Causa em Música, em reconhecimento ás suas muitas realizações e conquistas na carreira. Sua música tem influenciado gerações de músicos e enriquecerá, para sempre, a música popular.

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Luhli & Lucina têm seu valor e status de pioneiras da música independente reconhecidos no documentário ‘Yorimatã’

Yorimata2

A década de 1970 soa até hoje como uma das mais férteis para a música brasileira. E, também, para os anseios de liberdade que grande parte da população do país carregava naqueles tempos de ditadura militar. Foi nesse momento que duas mulheres tão férteis quanto ávidas pela libertação se encontraram e construíram juntas uma linda história de amor costurada pela arte de compor, tocar e cantar. A carioca Luhli (Heloísa Orosco Borges da Fonseca) e a mato-grossense Lucina (Lúcia Helena Carvalho) já dominavam o violão e faziam belas canções, mas foi depois que o encontro se deu que elas criaram uma obra digna de respeito, apesar de pouco respeitada à época. A história  de como as pressões da indústria fonográfica colaboraram para que a dupla Luhli & Lucina percorresse um caminho alternativo (e, se bem observado, precursor de muitos movimentos que vieram a se estabelecer 30 anos depois) é contada por Rafael Saar no sensível e delicado filme Yorimatã, feito (como tudo no Brasil) com todo esforço que um cineasta iniciante precisa para conseguir executar um projeto e distribuído no circuito comercial após um bem-sucedido crowdfunding.

Luhli e Lucina ontemLuhli e Lucina hojeLuhli e Lucina foram as primeiras artistas a levar tambores dos terreiros para a música popular. Foram também as primeiras mulheres brasileira a produzir, gravar e distribuir um disco – Luli e Lucinha, de 1979 – de forma independente (Antônio Adolfo foi o primeiro homem a fazer isso no país). A dupla enfrentou tudo e todos para viver um relacionamento a três com o fotógrafo Luiz Fernando Borges da Fonseca, que registrou  em filmes 8mm o dia a dia deles e de seus filhos (dois de cada uma, todos de Luiz) tanto no pacato sítio em Filgueiras, na cidade de Mangaratiba (RJ), quanto nos shows que faziam nas cidades grandes. O estilo hippie inspirou canções registradas também nos outros álbuns de Luhli & LucinaAmor de Mulher – YorimatãÊta Nóis!Timbres Temperos; e Porque sim porque não. Inspirou também as eternizadas por Ney Matogrosso (O vira, parceria de Luli com João Ricardo; Pedra de rio; e Bandolero) e Joyce Moreno (Doçura forte). Ney e Joyce são duas das participações no documentário, que traz ainda Gilberto Gil, Zélia Duncan, Itamar Assumpção e as irmãs Tetê e Alzira Espíndola.

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Sobre ritmo ou sobre como o carioca é acelerado

Táxi Fusca

Pierre virou meu taxista cativo nas idas e vindas para o trabalho às 5h20 da manhã. Adotei Pierre porque ele acorda todo dia às 4h30 pilhadíssimo e me leva rapidão – mesmo correndo, na maior segurança (dirige como eu, confessei a ele) – num carro que nada tem a ver com esses da foto (meramente ilustrativa). O cara não chega virado após rodar a madrugada toda nem se opõe aos pedidos que faço em relação ao caminho. Pierre fala pra burro e me faz rir à beça, o que me ajuda (e muito!) a despertar. Pierre é o típico exemplo de que os fortes também amam. Negro, alto, forte, de voz grave e imponente, ele é um homem que se apaixona e que vive intensamente suas paixões. Hoje, Pierre me fez gargalhar durante todo o nosso longo percurso (pela primeira vez lamentei nossa viagem ter sido tão rápida) me contando de sua viagem a Campinas, onde mora sua namorada recente.

– Chris, quase infartei umas 3 vezes!

– Por que, Pierre?

– Por que cheguei aceleradíssimo… Assim com esse nosso jeito, né?… E o povo lá em outro tempo. Precisei ir ao banco e ela me sugeriu sair de casa às 15h45. Eu fiquei doido achando que não ia dar tempo. (Gargalhadas) Depois, fomos ao mercado e a mulher do caixa tentou passar o código de barras umas 5 vezes em vez de digitar o número e agilizar o processo. (Gargalhadas) Na hora de pagar, a mulher conferiu o troco umas 4 vezes! Falei: “Ah, não, filha! Dá aqui que eu confiro!” Chris, a namorada ficou brava comigo, a porrada estancou e eu, que viajei 500 quilômetros pra ver a gata, não peguei a mulher até domingo! (Gargalhadas) Acredita nisso?

– Não acredito!!!! Mas cara… Se liga na minha dica, Pierre: procure uma yoga, uma meditação ou experimente passar mais dias lá em Campinas com ela. Você precisa saber a hora de desacelerar.

– Mas você sabe?

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