
No abraço, Zeca avista a câmera
A minha consagração aconteceu no mesmo dia em que Serjão foi acentuado e virou Allaúde (leia aqui). Só que meu lance não teve a ver com tatuagem. De rabiscos e e-mails, eu já estava cheia. Havia decidido que não tentaria mais fazer contato com Zeca Baleiro. Depois de algumas trocas de e-mails e telefonemas, na época em que começamos a fazer entrevistas sem ser por intermédio de assessorias e a bater papo sobre a ECT (Eu, Chris e Taís), minha banda, ele parou de responder logo quando o assunto ficou sério: estávamos entrando em estúdio, doidos para registrar uma versão de “Olhozinho” – música que ele fez para Rita Ribeiro gravar – e Zeca não respondia se achava a ideia legal.

Zeca vai ao encontro de Taís e Serjão
Do começo…
Foi Hyldon quem me colocou em contato com este que é um dos meus ídolos na música brasileira e um cara que certamente me influencia muito. Estava fazendo para o Segundo Caderno do jornal O Globo uma matéria sobre a gravação de “Soul Brasileiro” e precisei falar com os convidados que fariam participação no disco do soulman baiano. Entrevistei Chico Buarque, Carlinhos Brown, Frejat e Zeca Baleiro. Depois de Chico – não posso negar que não fiquei tensa ao abordá-lo no seu campo de futebol numa manhã de sábado – a entrevista com Zeca foi a que mais me deixou nervosa (sim, jornalistas tremem de vez em quando). Putz, quando eu trabalhava no Extra, participei de uma coletiva de imprensa com ele e, depois, era só pergunta por e-mail e resposta via assessoria de imprensa. Maletação pura! Eu achando que o cara era um sebo e, nesta história do Hyldon, percebi que é um dos mais solícitos e gentis que conheci (o problema, como sempre é a entourage).

Entrego o material da banda para ele
Uma ou duas semanas depois da entrevista, que rolou por telefone, fui a um show de Rita Ribeiro com participação de Zeca, acompanhada de Totonho (aquele que toca acompanhado dos Cabra). Esse paraibano doido foi dizer ao cara, no camarim, que eu cantava “pra cacete”. Eu? Dali em diante, Zeca sempre perguntava sobre a banda, pedia para que eu mandasse algo gravado etc. Mas a gente ainda estava para estrear (o primeiro show aconteceria um mês depois desse encontro) e eu ficava só enrolando o moço. Um ano depois, quando decidimos entrar em estúdio, mandei um e-mail falando sobre “Olhozinho”. E, depois, mais um. Após a gravação, liguei para dizer que havia enviado o mp3 da faixa para ele por e-mail (recado na secretária eletrônica). Zeca nunca mais respondeu. Fiquei triste, tristinha…
Em São Paulo, deixei os dias correrem. Estava lá desde segunda e, na quinta, numa noitada no Grazie a Dio, desabafei com Paulo Zaidan – o produtor que me ajudou a marcar os shows da ECT (Eu, Chris e Taís) -, com Tatá, percussa da banda, e uma amiga. Eles disseram que eu devia tentar de novo, no dia seguinte. Mas dormi certa de que não faria isso, afinal, vai que o cara queria me ver longe de “Olhozinho”?
Vale uma pausa para falar sobre o por quê da paixão por essa música. Taís levou dez anos tentando me convencer de que tínhamos que ter uma banda. Eu, que nunca toquei bem nenhum instrumento e que não gostava muito de me exibir no palco, declinava. Em 2008, Taís me liga dizendo: “Pi, vamos montar uma banda? Tem uma música que quero muito que você cante. O nome é ‘Olhozinho’.” Por causa de uma sequência de coincidências que estavam rolando (um dia vou escrever um post só sobre isso), topei na hora e pode-se dizer que esta foi a primeira música do repertório da ECT (Eu, Chris e Taís). É ou não é importante para a nossa história?

Zeca mostra o CD da banda para a câmera
Voltando… Na sexta-feira, um dia antes de irmos para Pindamonhangaba (para o show do festival Fun Music), dois dias antes da apresentação na Livraria da Vila e três dias antes de irmos embora de Sampa, estávamos eu, Taís e Serjão no ônibus para a Praça da República. Íamos na Galeria do Rock acentuar Allaude. Algo gritou dentro de mim e eu escrevi um torpedo para o Zeca, seco:
“Zeca, estou em SP e gostaria de deixar um CD da banda para você. Tem algum endereço possível? Beijos, Chris Fuscaldo”
Minutos depois, pi-pi! Ele respondeu!!! Pediu desculpas por não ter retornado antes e me deu um endereço. Agradeci, dizendo que deixaria lá no domingo. Toca o telefone. É ele! “Taís, filma isso!” Eu, nervosíssima, vendo o nome dele piscar na tela do meu celular e pedindo para Taís – que estava com a câmera na mão – registrar aquele momento para o filme (makinf of da turnê)que estávamos fazendo desde a nossa saída de casa para Sampa.
“Achei melhor ligar, porque no domingo o escritório está fechado. Como estão seus dias aqui?”, perguntou.
Comecei e falar e chegamos à conclusão de que em meia hora estaríamos no mesmo quarteirão, pois ele faria uma participação no show de Siba no Vale do Anhangabaú e a concentração seria no Teatro Municipal, que fica ao lado da Galeria do Rock. Combinei de encontrá-lo logo ali. Meu Deus, o cara é solícito mesmo!

A despedida do músico gentil
Enquanto Serjão se transformava em Allaúde, comprei um vestido para usar no show do Fun Music. Estava sobrando pano, mas uma senhora na loja da frente ajustou para mim. Nervosa, decidi que encontraria Zeca Baleiro com a roupa nova (o toque de Zeca deu sorte, pois saímos classificados do festival). Taís e Serjão morriam de rir enquanto me seguiam em busca de Zeca. Me perdi dele, troquei torpedos, telefonemas e finalmente avistei o cara vindo a pé ao meu encontro. Depois de um abraço, ele perguntou se eu estava só. Apontei Taís e Serjão, que filmavam tudo de longe. Que vergonha!!! Fiquei na dúvida se o cara ia ficar chateado, mas ele quis conhecer o resto da galera. E foi até lá. Taís não largou a câmera, o que fez o vídeo ficar muito engraçado.
Taís brincou dizendo que eu devia ter dito que estava “só, sozinha”. Mas ainda bem que sou sincera sempre: quando assisti ao vídeo, percebi que Zeca avistou a câmera assim que ele me deu o abraço. Acho que a pergunta sobre estar sozinha era para conferir se eu ia falar a verdade e/ou para saber se aquela câmera era de algum paparazzo.
Zeca foi demais! E saiu de lá com “Olhozinho” nas mãos. Pedimos para que ele nos diga se gostou da versão. Não sei se ele vai sumir mais uma vez, mas confesso que gostaria de ser um mosquitinho para entrar onde ele estivesse ouvindo o nosso disco. De noite, todos da banda queriam assistir ao filme. No domingo, todos ficaram ansiosos para saber se Zeca ia nos ver na Livraria da Vila (ele disse que, se chegasse a tempo do show de Brasília, tentaria passsar lá). Mas, com ou sem resposta dele, posso dizer que aquele fim de tarde no Centro de São Paulo foi o dia da minha consagração, no que diz respeito à ECT (EU, Chris e Taís).
Quer ouvir ‘Olhozinho’? Clique aqui: Olhozinho
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