Arquivo de janeiro de 2010
Canastra lança EP em vinil na terceira edição da festa Se a Moda Pega
terça-feira, 5 de janeiro de 2010‘Lula – O Filho do Brasil’: A trajetória do menino que não tinha sapatos e chegou a presidente
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
“Lula – O Filho do Brasil” é um filme que vale a pena ver. A bela trajetória do menino que não tinha sapatos e chegou a presidente do Brasil é retratada no longa de Fábio Barreto sem puxa-saquismos nem floreios. O roteiro lembra um pouco o de ”2 Filhos de Francico”, longa sobre a história Zezé di Camargo & Luciano. Só que, no filme sobre Luiz Inácio da Silva, é a mãe a responsável pelo sucesso do personagem principal. Interpretada maravilhosamente bem por Glória Pires, Dona Lindu é quem traça o destino de Lula, fazendo ele acreditar na frase: “É só teimar. Levante a cabeça, olhe pra frente e teima”. Ela só perde a força quando o filho, após sofrer uma tragédia familiar, decide mergulhar na política: a mãe se amedronta, mas o filho acha que não tem mais nada a perder e se candidata a diretor do Sindicato dos Metalúrgicos.
É incrível perceber que uma das características mais marcantes de Luiz Inácio, o Lula, é o carisma. Destaque para a cena em que ele convoca os metalúrgicos para falar sobre como atuar dali pra frente, diante das ameaças da ditadura militar: Lula fala sem megafone e as pessoas vão passando suas frases para os de trás. Só que são milhares de pessoas em volta. Inacreditável! Bacana também – digo, trágico, mas interessante – o momento em que o torneiro mecânico perde o dedo em uma das máquinas. Dona Lindu não deixa o filho deprimir. Rui Ricardo Diaz merece aplausos pela ótima interpretação do presidente do Brasil.
A trilha sonora perde um pouco a magia, já que foram incluídas no filme músicas que não eram daquele tempo. Foi o próprio presidente quem escolheu muitas delas. Mas não faz sentido “Você”, do disco de Tim Maia de 1971, ser a canção do casamento de Luiz Inácio com Lourdes (Cleo Pires), sua primeira mulher, ocorrido em 1964. Mas tudo certo. É a tal da licença poética, né? Sobre isso, clique aqui e leia matéria de Leonardo Lichote no site de “O Globo”.
Trechos divertidos e/ou emocionantes de “Lula – O Filho do Brasil”:
“Mãe, a gente tá caindo no mundo, não tá?
Quando Luiz Inácio pergunta pelo pai, Dona Lindu diz que ele caiu no mundo. Quando a matriarca junta os oito filhos para viajar de Caetés para Santos, o menino, que estava na barriga quando Aristides arrumou as malas e partiu com a amante grávida para São Paulo, fica curioso para saber se está vivendo a mesma situação que o pai.
“Porque homem não bate em mulher!”
Lula defende Dona Lindu quando Aristides, em Santos, agride a mulher porque ela mandou os filhos para a escola. Em seguida, Lindu leva as crianças para Vila Carioca, em São Paulo.
“Ainda vou ter um macacão desse!”
Luiz Inácio vislumbra o uniforme de torneiro mecânico. Dona Lindu faz sua matrícula em um curso e, em 1961, o jovem sai formado. A mãe não aguenta de emoção ao ver o filho com o diploma na mão.
“Esse sindicato agora é minha família também”
Depois de viver a maior tragédia de sua história (apesar de o trailer do filme mostrar, prefiro deixar o suspense), Luiz Inácio mergulha de vez na política.
“A gente ficou viúvo praticamente ao mesmo tempo, meu filho teria a idade do seu e a gente mora com a mãe. É coincidência demais!”
É isso que Lula diz quando conhece Marisa Letícia, a primeira-dama do Brasil. O primeiro encontro se dá no sindicato, mas logo o metalúrgico vai procurá-la em sua casa.
Assista ao trailer:
Diretor de ‘A Era do Gelo 3′ fala sobre vida, carreira e ‘Rio’, seu novo projeto de animação
domingo, 3 de janeiro de 2010Intitulada “Animação É Com Ele”, a entrevista com Carlos Saldanha foi publicada na terceira edição da revista de cinema Movie (conheça), que chegou às bancas em dezembro. Aqui, leia a entrevista na íntegra.
A animação nunca foi o forte do cinema brasileiro. Nenhum nome havia despontado no mercado nacional, quem dirá fora do país. Até o dia em que um carioca atravessou o tapete vermelho do Kodak Theatre. Carlos Saldanha foi receber com o Chris Wedge, diretor de “A Era do Gelo”, em 2003, o prêmio ao qual o filme estava indicado, Melhor Filme de Animação. Co-diretor do filme sobre um grupo de animais que, em plena Era Glacial, encontra uma criança perdida, saiu sem o troféu. E talvez por isso não tenha percebido que o sucesso já começava a bater em sua porta. Este carioca voltaria à cerimônia um ano depois, concorrendo novamente com o curta-metragem “Gone Nutty” e, em 2009, seria aclamado em seu país de origem pelo sucesso como diretor único dos dois longa-metragens da Twentieth Century Fox e do Blue Sky Studios seguintes ao que alçou ele à fama: “A Era do Gelo 2″ e “A Era do Gelo 3″. Durante o Festival do Rio, o diretor aproveitou a passagem pelo Rio de Janeiro para autografar cópias em Blu-Ray do terceiro filme da série.
“Nunca imaginei isso tudo, pois meus objetivos são de pouco em pouco. Fui para os Estados Unidos com o objetivo de aprender animação e , lá, aprendi animação. Depois, quis fazer um filme e fiz. O resto veio com o trabalho. Eu tracei uma linha para a minha vida: vou casar, ter filhos, trabalhar… sigo essa linha, que é simples e reta”, conta Saldanha.
Carlos Saldanha, hoje com 41, casou-se ainda no Brasil. Com Isabela, que lhe deu quatro filhos: Manuela (12), Sophia (8), Julia (1) e Rafael, de dois meses. O único menino nasceu no Rio, durante uma das três passagens anuais do diretor pela cidade. Foi aqui também que veio à luz a arara que Saldanha acaba de criar para sua próxima animação. “Rio”, que se passa na cidade natal do pai de Rafael, está em fase de produção e deve levar pelo menos dois anos para chegar aos cinemas.
Pode-se dizer que a história da arara tem a ver com a de Saldanha, só que ao contrário. Formado em Informática e apaixonado por desenho, Carlos Saldanha cansou do trabalho que exercia e, aos 21 anos, decidiu ir para Nova York da noite para o dia. A mulher trancou a faculdade de engenharia e foi junto. Pensas que ele se sentiu acuado ao ver que o mercado da animação era para gente grande e que a capital do mundo não era a cidade mais caliente que ele conheceu na vida? Que nada! Saldanha tirou de letra.
“Ah, eu adorei! Foi engraçado porque minha esposa falou assim: ‘Eu achava que você era feliz e, quando você chegou aqui, vi que você ficou mais feliz.’ Eu adorava trabalhar com computador, mas adorava mais ainda desenhar. Eu ficava naquela de querer fazer algo com desenho, mas também não queria largar o computador. Aí, fui para os Estados Unidos para ver se conseguia juntar as duas coisas. Vi que poderia fazer animação, comecei a trabalhar com isso e descobri que finalmente tinha um sonho.”
Confira entrevista com Carlos Saldanha:
Quando saiu do Brasil, há 18 anos, você imaginou que voltaria autografando o DVD do maior fenômeno da história da animação no Brasil?
Nunca imaginei isso tudo, pois meus objetivos são de pouco em pouco. Fui para os Estados Unidos com o objetivo de aprender animação e , lá, aprendi animação. Depois, quis fazer um filme e fiz. O resto veio com o trabalho. Eu tracei uma linha para a minha vida: vou casar, ter filhos, trabalhar… sigo essa linha, que é simples e reta.
Como era sua vida antes de ir para os Estados Unidos e o que te fez jogar tudo para o alto e ir para lá?
Aqui no Brasil, trabalhei com informática. Me formei em ciência da computação. Mas eu adorava desenhar. Então, eu sempre ficava naquela de “pôxa, quero fazer alguma coisa com desenho”. Mas também não queria largar o computador. Foi aí que decidi ir para os Estados Unidos ver o que eu poderia fazer. A animação me atraiu muito. Comecei a trabalhar com isso e descobri que tinha um sonho.
Depois que se formou na School of Visual Arts, seu primeiro emprego foi com animação?
Assim que me formei, fui trabalhar na Blue Sky e não saí mais. Estou na lá o tempo que estou nos Estados Unidos praticamente. Sou fiel. Me casei e fui para os Estados Unidos. Aí, me casei com o país. Cheguei na faculdade e me casei com ela. E, depois, casei com a Blue Sky. Aí, veio ‘A Era do Gelo’ e eu casei de novo.
E sua esposa embarcou na sua?
A gente era noivo, eu estava trabalhando, tinha um emprego bom, ganhava um salário legal. A gente estava planejando casamento, aquela coisa toda. Aí, falei: ” Eu vou largar tudo e vou para os Estados Unidos. Vamos?” Ela falou: “Você tá maluco?” Eu falei: “Vamos? Vambora!” Ela trancou a faculdade de engenharia que fazia, na PUC, e fomos de mala e cuia. Eu com 21 anos e ela com, 20. Fomos para ficar três meses, mas foi dando certo. As coisas foram rolando, a gente foi ficando. Depois que me formei e consegui um trabalho, ela voltou a estudar. Fez matemática, trabalhou e foi muito bem-sucedida. Aí, quando a gente teve nosso segundo filho, ela largou tudo e foi ser dona de casa. E até hoje a profissão que ela mais ama é ser mãe. Temos quatro filhos.
O que você fez na Blue Sky até ser chamado para trabalhar com Chris Wedge em “A Era do Gelo”?
Quando comecei, a companhia era pequena. Fazíamos muita publicidade, e a gente buscava fazer comerciais de televisão com animação, para poder continuar fazendo o que gostava. Tive a oportunidade de dirigir e ganhei prêmios. Isso deu visibilidade para nosso trabalho. Começamos, então, a fazer uns filminhos aqui, outros ali. Chris Wedge, que era o fundador da companhia, foi convidado pela Fox a fazer “A Era do Gelo” e perguntou se eu queria ser o diretor. Falei: “Eu topo! É o nosso sonho! Vambora!” A equipe toda trabalhou no filme e foi aquele sucesso. Fizemos “Robôs” (2005) logo depois e, durante o processo, a Fox perguntou se eu faria “A Era do Gelo 2″ sozinho, já que o Chris queria descansar depois de dois longas.
Todos os filmes da série foram um sucesso, mas “A Era do Gelo 3″, em particular, foi um estouro, né?
No Brasil, “A Era do Gelo 3″ é o filme mais visto da história do cinema. Em trinta países, ele foi o filme do ano. Internacionalmente, ele só perdeu para “Titanic” e “O Senhor dos Anéis”. O filme já fez mais de US$ 880 milhões no mundo todo.
E, agora, suas forças estão voltadas para um filme que leva o nome da cidade onde você nasceu…
Se Deus quiser, agora é Rio! O nome do filme é “Rio”.
Conte sobre esse projeto.
Não posso contar.
Ah, nem um pouquinho?
Não.
Mas é animação?
É a historia de um pássaro brasileiro… uma arara… que foi criada nos Estados Unidos e vem pro Rio de Janeiro como um gringo. Só que, aqui, descobre sua brasilidade através da música, do visual, dos amigos… de tudo.
É o Zé Carioca?
Não! É melhor que o Zé Carioca!
E o Carlos Saldanha que volta ao Rio.. qual é a diferença entre ele e aquele que saiu daqui há 18 anos?
Está bem mais velho, né?!
Mas você se realizou? O que mudou?
Ganhei mais confiança em mim mesmo e mais felicidade no sentido de ter construído coisas que dão orgulho, que me dão inspiração para continuar. Construí minha família, minha vida profissional. Fico feliz e sei que dou orgulho a meus filhos. Acho que o Carlos de hoje é isso. É um Carlos mais realizado emocionalmente, talvez até mais do que profissionalmente. Hoje, para mim, se eu e minha família tivermos e pudermos resolver os problemas juntos, é o que eu quero. O resto, tá bom.
Carlos Saldanha em números:
41 anos
18 anos fora do Brasil
4 filhos
Investimento:
“A Era do Gelo”: aproximadamente US$ 70 milhões
“A Era do Gelo 2″: aproximadamente US$ 90 milhões
“A Era do Gelo 3″: aproximadamente US$ 100 milhões
- “A Era do Gelo 2” foi o filme de animação mais lucrativo de 2006 e um dos mais lucrativos da história da Fox.
- Retorno “A Era do Gelo 3″: Mais de US$ 880 milhões no mundo todo.
Bilheteria e público no Brasil:
“A Era do Gelo”: R$ 13,3 e 2,5 de espectadores
“A Era do Gelo 2″: R$ 42,8 e 5,8 de espectadores
“A Era do Gelo 3″: R$ 81,8 e 9,2 de espectadores
Tecnologia e incentivo à animação:
Do primeiro “A Era do Gelo” para o segundo, mudou a tecnologia: “Eu desenhava no papel e, se não dava certo, jogava tudo fora. Fazia a mesma cena umas trezentas vezes. Agora, é tudo digital. Mas ainda tem quem faça a lápis. Não me meto nisso, não. Deixo cada um escolher sua ferramenta e espero só um resultado legal. Desenvolvo a idéia e vários artistas desenham, cada um a sua maneira. Meto a mão na massa ajudando eles, solucionando problemas, desbloqueando idéias. Meu trabalho é de diretor, psicólogo, amigo, tudo”, explica.
Para Carlos Saldanha, só falta o Brasil conquistar seu lugar na animação: “Não dá para comparar aos Estados Unidos porque são realidades diferentes, mas a animação evoluiu muito da época em que saí do país. Mas ainda tem muito espaço para crescer e meu objetivo, no futuro, é ajudar essa indústria a crescer. No momento, posso ajudar de lá. Mas o futuro a Deus pertence. Se houver oportunidade aqui também, até estou disposto a voltar.”
Outros filmes para os quais trabalhou:
“The Adventures of Korky, the Corkscrew” (1992)
“Time For Love” (1993)
“Joe e as Baratas” (1996)
“Um Passe de Mágica” (1997)
“Clube da Luta” (1999)
Prêmios:
“Big Deal”, anúncio da Bell Atlantic, ganhou vários prêmios, entre eles um Bronze Clio, em 1997. Em 1999, ganhou um Gold Clio pela animação de “Re-Incarnated”, comercial da cerveja Tennents para a campanha da Copa do Mundo de 1998 na Europa. “A Era do Gelo” foi indicado ao Oscar em 2003. “Gone Nutty” foi indicado ao Oscar em 2004.
Veja vídeo exclusivo com Carlos Saldanha falando sobre sua passagem pelo Rio:
Quer ficar sempre informado do que está rolando no blog? Siga o GarotaFM no Twitter: http://twitter.com/garotafm
Uma das três melhores cantoras de jazz do mundo, Ithamara Koorax faz temporada no Rio
sábado, 2 de janeiro de 2010Uma das artistas brasileiras de maior sucesso fora do país, Ithamara Koorax vai passar janeiro matando a saudade de casa. A cantora aterrissa no Bar do Tom, onde faz temporada do dia 2 ao 30. Os shows são sempre na sexta e no sábado, exceto neste fim de semana de estreia, no qual ela canta sábado e domingo. Apresentando o show “Bim Bom World Tour”, a cantora vai mesclar clássicos com canções do seu 12º álbum, “Bim Bom”, um tributo a João Gilberto que ganhou resenhas com boas cotações no jornal New York Times, nas revistas JazzTimes, Cashbox e Billboard e no site All Music Guide. “Human Nature” (Michael Jackson), “Got To Be Real” (Cheryl Lynn) e “Aviso Aos Navegantes” (Lulu Santos) estão no roteiro. Ithamara Koorax garante que vai oferecer aos cariocas tudo o que ela costuma dar aos seus fãs fora do Brasil. Leia entrevista com a estrela do jazz, eleita, pelo segundo ano consecutivo, uma das três melhores cantoras de jazz do mundo pelos leitores das revistas DownBeat, Swing Journal e Jazz People – ao lado de Diana Krall e Cassandra Wilson.
GarotaFM: Por que a decisão de fazer um disco tributo a João Gilberto?
Ithamara Koorax: Conheci João Gilberto através de “Canção do Amor Demais”, de Elizeth Cardoso. Meus pais adoravam o disco e eu cresci ouvindo aquelas músicas. Conheço de cor todos os arranjos do Tom Jobim. Por sincronicidade, quando iniciei minha carreira profissional, em 1990, Elizeth se tornou minha madrinha artística. Depois o Tom gravou comigo em 1994. E agora eu celebro meus 20 anos de carreira reverenciando o João!
A idéia é antiga, apenas foi sendo atropelada por outros projetos. Mas tenho certeza que se concretizou na hora certa e com o parceiro certo, o guitarrista mineiro Juarez Moreira, que também sempre foi apaixonado pelo João. A prova de que acertamos na mosca é o fato do CD estar sendo unanimemente aclamado nos EUA, na Europa e na Ásia, com resenhas maravilhosas no New York Times, nas revistas JazzTimes, Cashbox e Billboard, no All Music Guide etc. E ainda me fez ser votada, pelo segundo ano consecutivo, uma das três melhores cantoras de jazz do mundo, segundo os leitores da DownBeat.
O João é a última lenda-viva da música brasileira. Depois de eu ter trabalhado com gênios como Tom Jobim, Luiz Bonfá, João Donato e Hermeto Pascoal, era natural que eu me aventurasse pela obra autoral do João – jamais gravaria um tributo ao “João intérprete”, porque seria ridículo tentar imita-lo, inclusive porque várias pessoas já fizeram isso e os resultados sempre foram medíocres.
Pela primeira vez, todas as composições do João estão reunidas em um disco. E, é bom frisar, não é um disco de bossa nova. Tem bossa, mas também tem baião (“Undiú”), valsa (“Bebel”), bolero (“Hoba-Lá-Lá”), samba-canção (“Você Esteve Com Meu Bem?”), latin-jazz (“Acapulco”) etc.
GFM: Como é ser aclamada fora do Brasil e como é sua relação com a crítica brasileira?
IK: Em janeiro de 1990, quando fiz meu primeiro show como cantora profissional, eu era uma ingênua, não acreditava em maldade nem em inveja. O engraçado é que, quando você está começando, todo mundo apóia, dá força. À medida em que você vai progredindo e conquistando espaço, muita gente começa a sentir inveja. E começam as rasteiras, começa um “jogo sujo” muito feio. Meu relacionamento com a imprensa brasileira em geral é excelente, é importante frisar isso. Com grande parte da crítica músical, formada por historiadores veteranos como Tárik de Souza, Roberto Muggiati, Carlos Calado e Sergio Cabral, também. Mas com a turminha de segundo escalão da crítica musical, que está na profissão apenas para usufruir das bocas-livres, beber chope de graça nas estréias e revender nos sebos os CDs que recebe, começa o problema. Este pessoal, recalcado e invejoso, tem verdadeiro ódio de quem faz sucesso no exterior. Infelizmente é uma coisa muito triste, uma atitude ridícula e vergonhosa que prejudica a carreira de muita gente no Brasil, inclusive a minha, porque NADA do que fazemos e conquistamos internacionalmente é noticiado ou valorizado na imprensa nacional.
O Tom Jobim, que passou a vida inteira sendo acusado de “americanizado”, só foi “absolvido” depois que morreu precocemente e de forma trágica. A única outra forma de obter perdão é voltando pobre ou doente para o Brasil. O Sergio Mendes, por exemplo, como fica cada vez mais rico, é cada vez mais odiado aqui, quando deveria ser aclamado como um Pelé da música, como um Ronaldinho. “Bim Bom” não será lançado no Brasil, mas isto não me entristece. Pelo contrário, até dá um alívio porque pelo menos sei que o disco não será esculhambado pela crítica (rssss). É incrível mas, à medida em que meu sucesso aumenta no exterior, a crítica musical carioca mais me trata de forma vil e desrespeitosa. Mas não levo para o lado pessoal. Foi assim com Luiz Bonfá, Laurindo Almeida, Eumir Deodato, Walter Wanderley. Ainda é assim com Sergio Mendes, João Gilberto, Airto Moreira e Flora Purim. Por que seria diferente comigo?
GFM: Como se sente comemorando 20 anos de carreira em palco carioca?
IK: Muito feliz, claro! Amo meu país e adoro cantar no Rio, ainda mais nesta época de férias em que a cidade está repleta de turistas de outras cidades brasileiras. E me sinto plenamente realizada. Sou paga para fazer o que amo, viajo pelo mundo inteiro. Tenho um público fiel, faço uma média de 80 shows por ano, já cheguei a mais de 100 em alguns anos. Gravei e cantei com os meus maiores ídolos: Tom Jobim, Luiz Bonfá, Hermeto Pascoal, João Donato, Ron Carter, Edu Lobo, Martinho da Vila, Larry Coryell, John McLaughlin, Marcos Valle, Sadao Watanabe, Dave Brubeck, Claus Ogerman… Jamais sonhei que iria, um dia, obter um décimo do prestígio mundial que eu conquistei. Pelo segundo ano consecutivo, acabei de ser eleita a terceira melhor cantora na votação dos leitores da DownBeat, que é a “bíblia do jazz”. Há dez anos eu estou entre as dez melhores, não apenas na DownBeat mas também segundo várias outras revistas de jazz no mundo inteiro, então isso me deixa muito contente. O principal crítico dos EUA, Scott Yanow, me incluiu entre as melhores cantoras de todos os tempos, ao lado de Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Betty Carter e Flora Purim, no novo livro dele, “The Jazz Singers”. Não posso nem dizer que é a realização de um sonho porque eu nunca imaginei que atingiria este patamar de reconhecimento.
Em 2009, cantei no Rio durante todo o mês de janeiro. Comecei no Mistura Fina, lotadíssimo, com sessões extras, e continuei por mais três semanas de casa igualmente lotada no Bar do Tom. Depois fui pra Ásia, fiz três excursões pela Europa, fui gravar um outro disco nos Estados Unidos, enfim, muita coisa. No exterior, em 2009, foram 47 shows. No Brasil, 35, incluindo várias idas a São Paulo para shows no SESI, no circuito do SESC, no CCBB etc. Mas é normal mesmo que eu faça apenas uma temporada no Rio a cada ano. Ainda mais agora com a agenda cada vez mais lotada no exterior. Em fevereiro eu viajo para nova turnê na Europa, voltando ao Brasil apenas em abril, para shows em São Paulo, Brasília, Curitiba e outras cidades.
GFM: Há alguma diferença entre o show que apresentará no Rio e os shows que costuma fazer fora do Brasil? Por exemplo Lulu Santos entra no repertório lá de fora?
IK: O padrão de qualidade é o mesmo, assim como a minha entrega no palco. Faço cada show como se fosse o último. Esteja eu cantando em Londres, Paris, Gramado ou Ipatinga. Adoro surpreender o público e principalmente a mim mesma. Então só canto músicas que eu gosto. E são muitas, muitas! Eu poderia fazer 100 shows consecutivos sem repetir uma única canção, se fosse necessário. Tenho um repertório imenso, que inclui músicas que eu já gravei e outras tantas que eu nunca cantei em shows. No caso específico de “Aviso aos Navegantes”, que eu a-m-o, nunca cantei nem no exterior nem no Brasil. Mas certamente será mantida na parte internacional da “Bim Bom World Tour”.
GFM: O que você preparou que acha que vai surpreender o público carioca?
IK: Eu não faço show para agradar a crítica brasileira, até porque jamais conseguiria. Canto para agradar ao público. Amo ver e sentir a vibração da platéia se divertindo, cantando junto. Não sou uma esnobe, e muito menos uma pseudo-intelectual. Sou uma entertainer. No Bar do Tom levarei para o palco músicas que eu adoro cantar em casa, mas nunca havia interpretado “ao vivo”. Tenho uma lista de 50 músicas “inéditas na minha voz” e irei selecionando algumas a cada noite.
É um repertório variado, que vai desde “Smoke Gets In Your Eyes”, sucesso do grupo The Platters, até “Days of Wine and Roses”, do Henry Mancini. Quero também voltar a cantar “Got to Be Real”, “Never Can Say Goodbye” e “Human Nature”, gravada pelo Michael Jackson no “Thriller”, mas com uma pegada jazzística a la Miles Davis que eu já cantei nos meus shows nos anos 90. Mas, por favor, não me rotule de cantora eclética porque não faço covers. Todas as músicas são reprocessadas para o “estilo Ithamara Koorax” que me fez ser valorizada e tratada com respeito no mundo inteiro, exceto no Rio de Janeiro.
Ithamara Koorax: sábado e domingo (2 e 3), às 22h. Temporada até 30/01, com shows sextas e sábados. Bar do Tom (Rua Adalberto Ferreira, 32, Leblon – 2274-4022). R$ 60 a R$ 80.
Músicos de rua de diversos lugares do mundo cantam ‘Stand By Me’ juntos. Como? Leia aqui
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Recebi o seguinte e-mail de um amigo meu de São Paulo:
“Clique no link a seguir (aqui) e assista a algo absolutamente impressionante, técnica e musicalmente. Os músicos não se conhecem, pois cada um é de um canto do mundo. É aí que entram os técnicos de som e imagem voluntários e, sem remuneração, ocuparam-se de captar o som de cada um dos ‘cantores’, individual e mundialmente (são atuações ao ar livre e isso é extremamente difícil de fazer sem ‘ruídos exteriores’). Posto isso e remixado, atingindo um nível de pureza musical notável, chegamos a esta maravilha conseguida através de alta tecnologia e que, num instante, junta as pessoas de todo o mundo, fazendo-as sentir e falar ao mesmo tempo a mesma linguagem universal: a música. Momentos como este, de grande dedicação e generosidade, fazem-nos ainda ter alguma esperança na ‘raça humana’. Um ótimo 2010 a todos.“
É realmente incrível, sensacional, emocionante! Vale a pena conferir. Parafraseando End, um ótimo 2010 a todos!









