Lia Sophia sai de Belém para a novela das seis

Posted by Chris Fuscaldo Category: Entrevistas Tag:

Nascida na Guiana Francesa, criada em Macapá e radicada em Belém desde a adolescência, a cantora Lia Sophia embala a personagem de Andreia Horta na novela Amor Eterno Amor com o carimbó eletrônico “Ai, Menina”, de sua própria autoria. A música estará presente no CD “Salto Mortal”, que Lia prepara para o segundo semestre. Faixas como “Amor de Promoção” e a que dá título ao disco já estão prontas. Cantora, compositora e instrumentista, Lia mistura ritmos como carimbó, guitarrada, zouk e brega com toques eletrônicos. Seu primeiro disco, “Livre”, foi lançado em 2005. Quatro anos depois, veio “Castelo de Luz”. E, em 2010, ela lançou “Amor Amor”, com releituras de clássicos do brega paraense. Convidada de Gaby Amarantos no projeto Sonoridades, dias 23 e 24 de março no Oi Futuro de Ipanema, a cantora fala com exclusividade ao Garota FM sobre a ótima fase que a música paraense atravessa, cita a importância de conterrâneas como Fafá de Belém e Leila Pinheiro e analisa a boa aceitação que o estilo vem ganhando.

Como você vê esse momento da música paraense?

Vejo como um momento especial, quando estamos conseguindo ultrapassar os limites do estado e levar a música que produzimos a outros lugares do Brasil. Há também uma feliz coincidência nos trabalhos que estão sendo produzidos por aqui, o olhar tem se voltado para uma herança cultural, que penso ter sido negada por artistas, jornalistas e rádios daqui durante muitos anos. Agora os trabalhos musicais estão afirmando influências brega, caribenhas e afro-indígenas que fazem parte da formação musical da região Norte. Percebo também, para além das características artísticas/criativas, um ápice pela busca por profissionalização da cadeia produtiva da música, que vem aí de uns dez anos para cá. Isso ajuda com que a cena se organize e vá para frente.

O Brasil está preparado para essa invasão?

O Brasil é por natureza um país miscigenado que assimila e incorpora novidades com facilidade, principalmente musicais. Pelo menos o “povão” é assim!

Que artistas da cena do Pará, veteranos e novos, você destaca?

Destaco como agentes que ajudaram a construir o momento que vivemos hoje, todos os bregueiros, cantores e compositores, das décadas de 80 e 90. Por exemplo, Alípio Martins, Juca Medalha, Luiz Guilherme, Ted Max, Mauro Cota, Francis Dalva, Míriam Cunha, Carlos Santos, Fernando Belém e muitos outros. Esses artistas meteram o pé na porta das rádios, num momento em que não se tocava música produzida na região, e abriram caminho para que hoje isso fosse diferente. Ainda falando em veteranos, destaco a Fafá de Belém, Nilson Chaves, entre tantos. Da nova geração, gosto muito do trabalho de Felipe Cordeiro, Gaby Amarantos, Luê Soares, Strobo, Adriana Cavalcante… Tem muita gente fazendo música boa aqui!

O trabalho da Banda Calypso também recebe muita influência das Guianas. Você se identifica com esse lado mais festivo da música?

Com certeza! Nasci em Cayena, Guiana Francesa, e durante a minha infância ouvíamos muito zouk, merengue, cacicó em casa. Venho de uma família festeira que adora música e dança, por isso a escolha do repertório sempre ser bem festivo na casa dos meus pais. E isso me influencia hoje nas composições e no repertório.

O Pará é um estado que revelou, no passado, grandes cantoras, como a já citada Fafá, Leila Pinheiro e Jane Duboc. São vozes que lhe influenciaram?

Sim! São cantoras incríveis. Cada uma com seu timbre e maneira de interpretar as canções, conseguiram se destacar e fazer história num país de tantas cantoras maravilhosas. Sou fã das três!

Qual a sensação que sentiu ao ouvir sua voz numa novela?

Senti não, sinto! (risos) Uma alegria, uma sensação de conquista. Afinal, acho que todo artista deseja ter o seu trabalho exposto para o maior número de pessoas possível, e é isso que a visibilidade de uma novela proporciona. Tenho recebido muitas mensagens de carinho e apoio de todo canto do Brasil, por aí posso avaliar o alcance disso. Além de ser um belo termômetro do caminho que quero fazer nesse novo trabalho. Essa música, “Ai Menina”, ainda não foi lançada oficialmente em nenhum disco, o que existia era uma versão demo, a qual eu havia disponibilizado nas minhas redes sociais e alguns produtores já haviam tido acesso. E, para minha surpresa, ela foi escolhida para a trilha da novela a partir dessa versão! Daí tive que correr pra preparar uma versão devidamente finalizada para a coisa ficar bonita mesmo.

Como estão os preparativos do seu novo disco?

Estamos ensaiando o repertório com a banda, definindo os arranjos, os timbres, para quando chegarmos no estúdio a coisa ser mais fácil. O repertório será 60% de músicas minhas, mas também tem uma música do Mestre Curica (“Beleza da Noite”) e uma de Almirzinho Gabriel (“Clarão da Lua”).  Devo receber como convidados especiais neste disco grandes guitarristas como Mestre Vieira, Felipe Cordeiro e Félix Robato. A ideia é mostrar toda a latinidade amazônica de maneira moderna, misturando várias influências rítmicas do carimbó, da guitarrada, do zouk, com pitadas de elementos eletrônicos. Este trabalho foi disponibilizado como um EP virtual chamado “Salto Mortal”, contendo três músicas, nas minhas redes sociais, e distribuído como material de divulgação para jornalistas e produtores. Recebi elogios importantes como os de Nelson Motta, que já até cunhou o termo “carimbop” para o meu som. Dentre as minhas composições, estarão “Ai menina” e “Amor de Promoção”, da qual estamos preparando um clipe ainda para este primeiro semestre. O álbum terá a produção musical de Carlos Miranda. E espero que o disco esteja pronto em julho e possamos lança-lo no segundo semestre.

Há dois anos você gravou um CD com músicas do chamado brega paraense. Acha que o conceito de brega está sendo bem aceito pela elite?

Pois é. Em 2010, eu lancei o álbum “Amor Amor”, após dois anos de pesquisas sobre o vasto e diversificado universo da música brega da região Norte. O que resultou em releituras de grandes clássicos das décadas de 80 e 90, sucessos que marcaram gerações e hoje são muito ouvidos nas Aparelhagens dos chamados Bailes da Saudade, que acontecem na periferia de Belém, e são conhecidos como “Flash Brega”. Esse disco foi muito bem recebido por aqui, já que são canções que foram ouvidas pelos nossos pais, avós, e que fizeram parte da infância de muita gente, como da minha. Esteticamente, fiz o caminho contrário ao ritmo brega nas releituras, enfatizando o lado pop das canções. Dizendo aos preconceituosos de plantão que se essas canções fossem cantadas em bossa, em baladas, em pop/rock, elas seriam bem recebidas. E foi o que aconteceu. Chegaram muitos comentários a mim do tipo: “eu detesto brega, mas adoro esse disco”. Mas só pra contrariar, no show de lançamento desse álbum, cantei as minhas próprias músicas (de outros trabalhos) em tecnobrega, zouk, e não como são no arranjo original. Tudo isso foi uma maneira de homenagear compositores bregas que tanto fizeram pela nossa música, e penso serem um eixo central da nossa cultura, mas que tanto são negados.

Apesar de todo o preconceito das elites ao que é considerado brega, acho que mesmo timidamente isso tem mudado. Quando artistas como Caetano Veloso, Marisa Monte, Kassin e outros da MPB mais contemporânea gravam músicas bregas ou que caminham nessa direção, a coisa fica mais fácil de ser aceita. É claro que esse brega aceito pela elite é mais moderno e com letras menos apelativas, além de já ter conquistado espaços undergrounds e ser “hypado” pela crítica, o que serve para mostrar o alcance de diferentes públicos que o brega conseguiu, depois de tanto apanhar. Assim fica mais fácil aceitar o seu lado brega.

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