Carta à produção do festival SWU, cuja segunda edição começou no sábado (12/11) e termina nesta segunda-feira (14/11), em Paulínia (SP):
SWU: não começa com você
Escrevo para fazer uma reclamação. Fui agredida na porta de entrada por seguranças truculentos. Fiz um pequeno motim e consegui no grito entrar com os objetos que a mulher queria que eu tirasse a bolsa (pente, espelho, lápis de olho etc). A foto dos objetos está aqui embaixo e também no Facebook, assim como relatos do ocorrido. Aconteceu assim:
Enquanto eu tirava a capa de chuva, que estava por cima da mochila, ao tentar me “ajudar”, uma das mulheres responsáveis pela revista RASGOU a mesma. Abriu o zíper enquanto eu ainda ajeitava a mochila em cima da mesa. Arrancou de dentro a necessaire que vai comigo a qualquer lugar (aeroportos, bancos, shows e outros festivais, tais como Rock in Rio e LupaLuna) e abriu. Pedi que deixasse eu abrir, mas ela IGNOROU minha fala e foi tirando tudo de dentro. Colocou a mão na minha escova de dente, abriu a pasta dental para cheirar e separou na mesa meu lápis de olho, um espelho redondo com suporte de madeira, um cortador de unha, uma pinça, dois pentes de plástico pequenos e presilhas tic-tac. Da outra bolsinha, retirou uma caneta americana, mas a Bic, largou lá. E disse que eu não entraria com os 19 OBJETOS que ela selecionou aleatoriamente. Detalhe: Chaves, cinto com fivela grande, sacos plásticos, shampoo, condicionador e caneta Bic entraram.
Falei para a jovem que essas REGRAS NÃO ESTAVAM ESCRITAS nem no site do SWU nem no verso do ingresso. E que eu tinha tudo ali porque fui do Rio de Janeiro direto, com a mochila nas costas com uma muda de roupa e a necessaire. Tudo passou pela rodoviária e pela Polícia Federal, no aeroporto. Pedi para falar com meu namorado, que por ter sido levado a correr uma fila de homens a essa altura já havia passado pela catraca, e uma OUTRA MULHER FEZ UMA BARREIRA, e disse que dali eu não passaria. Comecei a falar com ele de longe, gritando para ele ouvir e entender o que estava acontecendo. Eis que vem um SEGURANÇA GRANDE (leia-se alto e gordo) e se fazendo valer de seu tamanho, ME EMPURROU e disse que, se eu não jogasse aquelas coisas na lata de lixo, que fosse embora porque não teria conversa. Gritei que ele não podia ENCOSTAR EM MIM e, vendo a confusão, meu namorado pulou para fora do festival e veio em nossa direção, com a câmera ligada, registrando a tentativa de me inibir daquelas três pessoas. O “segurança grandão” METEU A MÃO NA MÃO DELE, desligando a câmera dele. Gritei mais uma vez, dizendo que ele não tinha o direito de encostar na gente. Uma pernambucana chamada Marília que estava tendo seus bens confiscados ali do lado e viu a cena decidiu se juntar a nós e também gritou com o homem. Um quarto “segurança” veio pra cima de mim, gritando QUE ERA POLICIAL E IA ME LEVAR DALI. Desafiei: “Me mostre então sua identificação e me diga seu nome!” E ele se negava a fazer uma coisa ou outra. A pernambucana fazia a mesma coisa. Meu namorado continuou filmando.
Exigi falar com o superior dele, mas eles não queriam chamar. Odeio dar a tal “CARTEIRADA”, mas nessa hora falei que era jornalista e que, em 2010, cobri o evento para o jornal O Globo do Rio (leia aqui). Mais que rapidamente, O SUPERIOR APARECEU (ele não quis se identificar, mas está no vídeo). Na frente dele, os dois “seguranças” truculentos NEGARAM que tivessem encostado na gente e ameaçado com palavras. O que se disse policial enfiou o rabo entre as pernas e só sabia dizer que estávamos mentindo. O superior declarou que havia chamado uma policial para nos revistar e nos dizer que as regras eram aquelas. Nós nos acalmamos e vimos ali A CHANCE DE registrar a ocorrência e de questionar onde estão essas regras. Enquanto esperávamos, Marília sugeriu ao superior que assistisse ao vídeo registrado por Marco. E, quando a companheira pernambucana repetiu para ele QUE EU ERA JORNALISTA, imediatamente ele nos levou para outra catraca E NOS LIBEROU COM TUDO o que tínhamos na bolsa. Medo de jornalista?
Pior é que mais de dez mulheres assistiram à cena e tentaram dar apoio, até mesmo numa de seguirem nossos passos e não perderem seus bens. Mas como as mesmas não fizeram barulho, acabaram ficando pra trás, presas na barreira dos quatro policiais “malvadinhos” e com certeza tiveram que deixar suas coisas na lata de lixo. Sempre que aceitarmos esse tipo de truculência, levaremos o prejuízo.
Porque estou trabalhando em outro projeto e por isso a Midiorama/MediaMania não me credenciou para a cobertura oficial do festival (aliás, a única assessoria que não dá crédito ao GarotaFM, site convidado para o Rock in Rio, a Mimo, o LupaLuna, o próprio SWU em 2010 e tantos outros festivais e eventos brasileiros de música), fui como plateia comum apenas no domingo, dia 13/11, quando tocariam dois ídolos meus: Zé Ramalho e Lynyrd Skynyrd. Por causa da confusão na porta de entrada, que durou mais de 45 minutos, PERDI O SHOW do Zé Ramalho. Calor, dor no peito, vermelhidão no rosto, sede, raiva… levei mais de uma hora e meia para me recuperar daquele estresse. Agradeço a meu namorado pelo apoio na briga, pela filmagem e por me acalmar depois.
Quando eu já um pouco mais relaxada, vi a seguinte cena acontecer do meu lado: uma menina comprando chope por R$ 7 e dando uma nota de R$ 10 e o vendedor se negando a dar troco, dizendo que com ele o preço era esse. Eu me perguntei: “Cadê a fiscalização?”
Gostaria de registrar o ocorrido porque vou querer uma explicação para isso. E quero saber também como a produção pretende ressarcir meu prejuízo por ter perdido o show de Zé Ramalho, artista que acompanho há anos e sobre o qual estou escrevendo um livro (leia mais).
Atenciosamente,
Christina Fuscaldo
* No site do SWU, há uma pergunta na seção FAQ sobre o que pode e não pode ser levado ao festival. De acordo com o texto, apenas meu cortador de unha deveria ter sido confiscado. E também desodorante, shampoo, condicionador e pasta de dente, que não foram. Mas o pregador proibido é apenas aquele tipo bico de papagaio. É proibido levar camisa de time, mas o que mais se via eram homens vestidos com camisas de times. Alô, produção, no ano que vem, é possível treinar os seguranças / responsáveis pela revista ou pelo menos contratar pessoas acostumadas a trabalhar com isso?
O texto que está no site:
Não pode levar: Armas de fogo; armas brancas de qualquer tipo ou espécie (facas, canivetes, etc); guarda-chuva (de qualquer tamanho); pingentes, correntes pesadas; objetos pontiagudos (inclusive prendedores de cabelo tipo bico de papagaio); objetos perfuro cortantes (tesoura, estiletes, cortador de unha, aparelho de barba); materiais ou objetos que possam causar ferimentos; balões em geral; malabares; fogos de artifício e de estampido (de qualquer espécie); objetos de vidro, plástico ou metal (perfumes, cosméticos – inclusive desodorantes de qualquer tipo -, pasta e escova de dente); substâncias tóxicas e utensílios para utilização de drogas; bebidas (em qualquer tipo de recipiente ou vasilhame que não seja copo de água mineral selado e lacrado com o tamanho máximo de 200ml; remédios (somente com autorização/receita médica); camisa de time de futebol; bandeira com mastro; papel em rolo de qualquer espécie, jornais, revistas e livros; alimentos de qualquer natureza – SÓ SERÃO PERMITIDOS ALIMENTOS INDUSTRIALIZADOS COM A EMBALAGEM LACRADA ORIGINALMENTE (SALGADINHOS/BOLACHAS/BISCOITOS) – ALIMENTOS IN NATURA, MANIPULADOS E/OU COM EMBALAGEM ABERTA NÃO SERÃO AUTORIZADOS); vasilhames, copo de vidro, latas, canecas ou qualquer outro tipo de embalagem vazia ou contendo líquidos de qualquer natureza que, direta ou indiretamente, possam provocar ferimentos em caso de esforço físico isolado ou generalizado; cadeiras; animais; máquinas fotográficas profissionais (lente intercambiável); gravadores; filmadoras; notebooks.
Pode levar: cigarro (1 maço lacrado); isqueiro; fósforo; dinheiro; cartão de débito e crédito; binóculo.